TEATRO MOVIMENTO NA SAÚDE MENTAL





 O DISTRAIDOR DE CORPOS
Uma experiência de
TEATRO MOVIMENTO
no 
Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro
2013/2015

Facilitador/Distraidor:
Marcondes Mesqueu
( ator, diretor, poeta,
praticante de contato improvisação,
pesquisador de Dança Butoh, jornalista e
livre pensador )

ASSISTA

NATAL 2015 CPRJ / E O MENINO NASCEU
https://www.youtube.com/watch?v=_U7h61lDods

VÍDEO COMEMORATIVO DOS 10 ANOS DO CPRJ
https://www.youtube.com/watch?v=OipZ3afVLXE&feature=youtu.be

  PÁSCOA
https://www.youtube.com/watch?v=8-stVoiMg_k

(PARTE DO LIVRO A SER LANÇADO)







PRAZER E TRANQUINAGEM
Partindo de movimentos livres conhecemos o equilíbrio e o desequilíbrio dos participantes. Os exercícios propõem a prática de fazer “traquinagens”. Estimulamos o reconhecimento do corpo como um todo e como ferramenta de prazer e tranquilidade. Exercitamos o moto continuo que parte da ideia de que só o movimento gera movimento e de que pausar não representa sair da ação, do movimento.                  Usamos Contato Improvisação, Movimentação Livre, Dança Teatro Butoh... O feio e o bonito estão submetidos à força da sinceridade de cada corpo em função de uma obra bem humorada pessoal em grupo.
Objetivo Geral                                                                                                             
Praticar o prazer de brincar com o corpo que se tem.
Objetivos Específicos                                                                                        
Promover um grupo de criação coletiva;
Montagem e apresentação de performance;                                          
Promover uma reflexão coletiva.                                                                             

CONQUISTAS
Melhora das relações com o equilíbrio do corpo;
Soluções criativas na relação corpo espaço;
Piadas inteligentes;
Liderança criativa nos exercícios...



O FAZER


Logo que iniciei a Oficina os pacientes manifestaram interesse. Trabalho com movimento liberando a criatividade através da expressão do corpo total. Atuo com eles. Gostam. Como alguns tem dificuldade em articular palavras desenvolvo o discurso do movimento que gera movimento. Reafirmo: Tudo é movimento até a pausa. A ideia do “acabou” não existe no Teatro Movimento. A ideia de fim é um desejo falido do homem de controlar o fluxo normal da natureza. Quando Deus fez o Universo deixou pra fazer o fim no final de tudo, mas antes desse momento o material acabou e Ele deu por concluída a sua obra mesmo sem o fim.
Até o momento tenho conseguido integrar todos na mesma atividade. Alguns funcionários e estagiários vivenciam a atividade. Nos ensaios evito ao máximo a plateia contemplativa. A porta está sempre aberta para assistir por dentro da ação. Não faço da Oficina um local para que os pacientes sejam observados e sim para que todos se observem numa ação vivenciada. No Teatro Movimento não tem espaço para pacientes e não pacientes. Lá, só temos integrantes. O fato do grupo sr heterogênio o fazer teatral é enriquecido de criatividade, solidariedade e respeito para com o outro.
Sigo com o Teatro Movimento regendo as possibilidades individuais em favor de uma criação coletiva. Alguns integrantes pedem para representarem falando. Meu propósito é ser o facilitador do grupo. Essa solicitação me leva para uma zona de perigo. O que pode está atrás do pedido? O teatro que a televisão e as grandes produções nos impõem é o exuberante e lotado de grandes citações. Procuro mostrar as vantagens das propostas inclusivas sem desconsiderar as individualidades. Em momentos sou levado a negociar a não uniformização das ações. Tem momentos que uma simetria militar nos movimentos toma conta do grupo. Percebo que uma ordem imposta pode contrariar a possibilidade criativa do homem. 

Uma roda que roda sempre igual
corre o risco de está parada fazendo um só movimento.
Corre o risco de criar a expectativa de só repetir.
Não existe erro desde que essa seja a proposta.

 
ISSO NÃO É UMA TROCA?
Vivenciei a experiência do paciente, fazer questão de me apresentar sua mãe. Isso me fez ter que ficar parado no corredor ouvindo músicas de Roberto Carlos cantadas pela sua genitora. Por mais que situações como essas atrapalhem a execução de tarefas emergenciais em que uma senhorinha cantante não estava prevista, me sinto recompensado. Teve uma hora que o filho atrapalhou o cantar romântico da sua mãe. Ela para, olha pra ele e dispara:- Cala a boca, o bosta. E continua a cantar. O filho olha pra mim, ri e diz:- Essa é a minha mãe. Ele me oferecia sua mãe com música e tudo. Isso não é uma troca?


PARTICIPOU, AVALIOU
Sempre que um convidado participa procuro colher às impressões. As diversas formas de sentir sempre são enriquecedoras. Hoje entendo que a continuidade de uma ação não depende da “presencialidade” pura e simples e sim do momento vivido. Uma, duas, três,...ou muitas vezes têm muito valor. Faço por onde o ouvir e falar sejam exercitados por todos em pé de igualdade.

UM DIA

Quando apareceu um praticante de capoeira no grupo fazendo exibição falei pra todos que aquilo eu não conseguia. Eles entenderam e se respeitaram. Esse paciente mostrou para o grupo sua audácia nos movimentos ensaiados, a liberdade criativa dos outros o incomodava. Esse é o típico comportamento que reaparece em grupo seja de paciente psiquiátrico ou não.  
  

CONVERSANDO COM OS ATORES
Segue algumas conclusões tiradas pelo grupo:
- O erro faz parte da vida.
- Se não errar não aprende.
- O teatro provoca admiração. Admiração recíproca (do publico para os atores e vice versa)
- O teatro provoca honestidade.
- O teatro faz as pessoas sorrirem.
- O teatro faz parte da Terapia Ocupacional.
- Espairece o cérebro.
- Mexe com a emoção.




DANIELA, A ITALIANA
A dor não é de todo ruim.
Ela avisa que teu corpo ainda  se sente. 
(inspirado nas palavras da italiana Daniela)                                                                    
Daniela é uma amiga antropóloga, pesquisadora da religiosidade afro, professora de dança do ventre,...  Um dia a convidei para conhecer o grupo. Gostou e foi ficando. Hoje, Daniela Calvo representa pra mim uma parceira de trocas. Há dois anos frequenta o grupo e participa das performances. Interessante: Tem pessoas que constroem empatia com a maior facilidade. Mesmo não sendo assídua, devido aos seus fazeres acadêmicos, conquistou um espaço no grupo. Aquilo que faz marca na memória do grupo. Os pacientes a esperam e gostam de conversar com ela, mesmo com um falar que mistura português com italiano. A troca verbal e silenciosa que fazemos tem sido valiosa para continuidade do trabalho. Tenho uma supervisora com uma erudição valiosa e compatível para o que a experiência necessita. Encontros da vida.

 
PIADA NÃO INCOMENDADAS

O paciente pede licença para contar piada.

1)Um homem chega pro outro e pergunta:
- Você comeria frango de macumba?
O outro responde: - Se não soltar tinta eu como.
...
2) O médico chega para o paciente e diz:
- Você tem que tomar cuidado com essa mulher que você está dando encima. Cuidado, você pode morrer. Tome muito cuidado.
O paciente preocupado pergunta:
- Mas por que doutor?
- Porque a mulher que você está dando encima é a MINHA MULHER.
...
Será que estou doido ao valorizar a irônica inteligência da resposta?
Ironia é qualidade dos inteligentes.


PORTARIA
Uma caminhada sempre estará no início.
Para aqueles por onde ela passa
o momento do novo encontro
será sempre o começo de tudo.
Carlos é um paciente que não faz parte do teatro. No dia 8 de novembro de 2013 quando cheguei ao Hospital o encontrei passeando de um lado pra outro na portaria. Quando o convidei para participar da Oficina ele me disse que estava andando. Perguntei por que. Respondeu: - Estou andando para aliviar a tensão. O pessoal anda na orla para aliviar a tensão. Tem muita pressão social exagerada. O único remédio para tensão e stress é andar. Alivia a mente e o coração.
Carlos, através do seu corpo, entende o malefício do sedentarismo e da prostração. É comum encontrá-lo andando na cidade. Seu andar é meio oriental. Passo rápido e curto. Parece um boneco eletrônico. Olhar sério e retilíneo. É de poucas palavras. Fala rápida e curta.  Espalhados pelo corpo, temos cérebros e corações. Corpo parado é corpo morto a espera de que alguma coisa o ressuscite.  A caminhada não se define pelas pernas. O corpo entende os benefícios do movimento. Entende que a vida é uma caminhada e a doença surge na contramão da felicidade atuando no redirecionamento da mesma. A doença pede parada, já a saúde movimento e expansão. A saúde alarga horizontes e a doença embota desejos. No fundo, todos sabemos que não viemos ao mundo para cuidar de doença e sim para manter a saúde. Carlos me fez compreender porque tem pessoas que ao perceberem que um amigo está nervoso o convida para dar uma “voltinha”.
Continuemos dando as nossas voltinhas. Voltinhas sacodem o ar produzindo vento e com isso refrescam, adoçam ou apimentam a caminhada. Dar uma voltinha movimenta e redimensiona o movimento. Lembro que tem gente que diz com brilho nos olhos: Adoro viajar, conhecer gente e lugares novos.
Ao contar a viagem com detalhes fala com a mesma excitação de tudo que foi bom e ruim. Tem uns que até riem ao confidenciarem que por momentos passaram fome, dormiram ao relento, se perderam ou que alguma coisa saiu perigosamente contrário ao previsto. 
Será que podemos afirmar que dar uma voltinha é solução terapêutica preventiva? Acho que Carlos tem razão?



CARIJÓ
Certa vez eu já estava indo embora, quando passei pelo portão um paciente me olha e sem mais nem menos diz: - Eu dancei com Carijó.
Prontamente respondi: - Eu, na minha juventude, por machismo perdi essa oportunidade. Me ofereceram malha e sapatilha para dançar com Carijó e eu tive medo de ser chamado de bicha.
Com o tempo vim saber que aquele paciente hoje morador de rua é um ex bailarino do Teatro Municipal do Rio de Janeiro massacrado pela droga. Ele resolveu falar pra mim o que ninguém no CPRJ sabia. No corpo daquele negro magro e retilíneo ainda existe uma sobra/sombra de bailarino.

VOU PARTICIPAR

A tua presença
Entra pelos sete buracos da minha cabeça,
A tua presença... (Caetano Veloso)
Uma surpresa: Já ia começar o ensaio quando aparece Marina, uma paciente que não participava do teatro. Vinha da culinária de toca higiênica na cabeça. Foi para posição da marca inicial e disse:- Vou participar. Ela podia atrapalhar os mais antigos. Já estava chegando o dia da apresentação de Natal. Eu só pedi que ela primeiro observasse a movimentação e depois entrasse. Marina se comportou como se fosse uma antiga participante. Sabia quase tudo. No ensaio, com a maioria mais segura na cena, ela se dava um tempo dentro da ação para aprender e seguir. Não atrapalhou e nem se atrapalhou. Esse episódio me fez questionar quantas formas de participação existem. Com Marcelo foi a mesma coisa. Ele ficava dormindo durante o teatro e em outros momentos, colaborava chamando os companheiros e quando todos estavam prontos para ensaiar Marcelo desaparecia. Eu o denominava Produtor. Passado um ano levantou da sesta e disse: - Vou participar. Hoje é um dos mais assíduos. Dentro do padrão acadêmico tanto Marina quanto Marcelo não faziam parte do teatro antes de começarem a ensaiar, porém quando entram na roda agiram como se fossem velhos integrantes. O que é participar? Tem uma fórmula padrão?


O TEMPO PASSA
Três anos. Continuamos dinamizando a Oficina de Teatro Movimento as quartas e sextas das 13 às 14 horas.


                                               METODOLOGIA
Desenvolvo pesquisa que denomino “corpo sincero”. Fugimos do belo e do feio, conceitos perversos que jogam o sujeito frente aos perigos da autoaceitação total (Eu sou mais eu.) ou da desaprovação (Não sirvo pra nada mesmo.). Entender-se pronto ou mal feito trava o processo evolutivo do sujeito na sua singularidade. Não reforçamos a ideia do indivíduo produto que se prepara a vida toda para ser consumido e/ou destruir a concorrência. Cada exercício de movimento que proponho reforço a importância das diversas negociações que temos que fazer com a vida. Não valorizo a competição e nem os melhores. Aposto todas as fichas na importância do jogo. Competição não resume a existência do jogo. Ganhar ou perder não fazem parte do jogo e sim da competição. Jogamos sem competir. A troca de carinhos é um tremendo jogo. Ganhamos quando mantemos o parceiro no jogo. Perdedores e vitoriosos são os vilões do jogo. Quando um deles surge termina o jogo.  A vitória do jogo é continuar jogando.  Busco construir junto com o grupo uma estética que contemple as características individuais em função de uma construção coletiva. Não deixo de orientá-los no tocante as consequências de uma postura com a cabeça caída, como também não me canso de incentiva-los a superar os limites pessoais ou a evitar movimentos repetitivos mecânicos que os coloque numa estagnação movimentada. Quando percebo isso fico muito atento para não invadir a criação do outro. Durante os exercícios peço que “cometam audácias”. Que cada um se explore. Eles sabem que cuidar do corpo é função de cada um. Importante frisar que “audácia” é ir ao encontro de novas possibilidades estéticas e não acrobacias arriscadas. Audácia não tem tamanho definido, ela é do tamanho que ela é. Nos ensaios observamos que, em muitos momentos, a audácia é a coisa feita no momento certo. Colocar o corpo numa auto dança é uma audácia que o grupo gosta de cometer. Em tempo: Paciente psiquiátrico tem autocrítica e sabe quando está “pagando mico”.


É muito difícil trabalhar com cabeças colonizadas
em prol do belo, aceitável e vazio.
É muito fácil trabalhar num grupo
onde cada participante é companheiro
do sujeito que está ao seu lado
na construção de uma vida melhor.






Agradeço a confiança do Dr. Francisco Negreiros, diretor do Hospital, da TO Eny, o empenho da Telma de buscar recursos junto ao Porto Novo para primeira parte dessa experiência  e o respeito que toda a equipe tem dispensado ao meu trabalho.












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