AÇÃO SOCIAL EDMUNDO E OLGA

  UMA EXPERIÊNCIA VIVA
      Olga              Karina          Gabriela
Abril de 2010, reunião de  Redes Comunitárias no SESC da Tijuca. Diego Alves, o então funcionário da Ação Social Edmundo e Olga que atende, prioritariamente, a comunidade do Morro da Mineira, Cidade Nova, nos indica para assumir a criação de um grupo de teatro com a garotada local.  Após entendimento com a direção da refira Ong ( Mirian – Presidente e Rita – Diretora Geral ) iniciamos o trabalho. Duas vezes por semana encontro o grupo.
Aquilo que em outras experiências se apresentou como tarefa fácil, por diversos momentos quase foi interrompido motivado pela inconstância dos integrantes e pela dificuldade de se aliarem a uma proposta de continuidade. O grupo resistia à unidade de ação.Uma desorganização no ar.  Além de temerem os confrontos armados na comunidade que residiam crescia no imaginário a figura de um fantasma. Na Mineira o fantástico tem espaço na vida de alguns.
Aconteceram dias em que os exercícios foram maravilhosos e no seguinte terrivelmente disperso. Por vezes cogitamos a possibilidade de que havia um complô entre alguns para que o grupo não fosse à diante. Entendo que não estou ali para expulsar os bagunceiros e sim para trabalhar as dificuldades. O teatro é objetivo e ferramenta de transformação. Nesse turbilhão três integrantes se fizeram significativas para permanência do Grupo Pequena Estrelas ( nome escolhido por eles ). Olga, Karina e Gabriela não esmoreceram. Permaneceram.
 Chegamos ao final de 2010 com uma peça de Natal montada. Reiniciamos o trabalho no segundo semestre de 2011 agora também com uma turma de crianças. Em momentos passeiam, no comportamento e forma de reagir na vida, da infância a pós adolescência.
Durante todo processo optamos pela sensibilização lúdica. A história de cada um acrescida da realidade social externa em conjunto com a insegurança física dificulta a liberdade criativa. Em muitos momentos nos pediram conducionismo, energia e postura professoral.
Resistimos. Assumimos não atendê-los na íntegra. Aos poucos vão tomando as rédeas da construção do espetáculo, da vida. Não priorizamos obediência e sim cidadania responsável/participativa.
O lá fora acena com uma UPP que ainda é muito recente para avaliarmos todas as influências no processo de amadurecimento desses jovens brasileiros. 2011, em pleno clima de ocupação de seu território de vida, optaram por encenarem coreografias musicais retiradas do cd do Seu Jorge. 
Dançaram uma dança já ensaiada na tv. Pra 2012 eles pedem texto. O amadurecimento é um fenômeno onde as intervenções externas tem seu papel significativo. Sigamos em frente. 
É chegado 2012 reiniciamos os trabalhos dessa vez com uma parceria com a Associação dos Moradores da Vila Mimosa. A diretriz do trabalho estava norteado pelo Projeto Brincadeira de Criança. Trabalhamos o tema e através de oficina de Teatro e Boneco.  Abordamos questões ligadas à cidadania tais como violência urbana, abandono, pobreza, saúde, DST, miséria e seus diversos reflexos e consequências, autoestima ( valorização e cuidado com o corpo)  e conversas versando sob temas vivenciados pelos envolvidos. Discutimos honestidade, solidariedade e seus medos frente à violência urbana. A cultura do si dar bem versus o conviver partilhado. Homofobia e efeitos das drogas brotavam tangencialmente nas falas e dramatização. Não expressavam aprovação quanto a violência, mas demonstravam tolerância e convivência. O desafio foi enfrentado com  técnicas ludicas . Reconheciam os prejuízos gerados pelo caos social em casa ou entre amigos.  Vidas perdidas vez e outra eram relatadas. Crianças que se declaravam “ pequenas e fracas “ para enfrentarem o mundo. Em seu imaginário mantinham as figuras fantásticas e perversas que as obrigava se recolherem às 18:30/19:00. Essa é uma questão que ainda temos que aprofundar nossa compreensão pois os monstros temidos, nunca foram vistos. Histórias de  ameaça invisível está na boca das crianças e de alguns adultos . O imaginário, em alguns momentos se iguala em faixa etária.
Cada encontro, cada exercício, cada atividade, cada luz acesa, riso, repreensão. Uma vida em ação. Cada momento passado com essas crianças foi o continuar de uma história. Temos muito ainda o que fazer. Vivemos momentos planejados e muitos outros inesperados.
Em momentos ficamos de frente para as questões ligadas ao afeto e consequentemente a descoberta do corpo, sexualidade, fome e violência. O desafio da gravidez na adolescência está no repreender preconceituosamente e perder o canal de diálogo. Se parte dos atendidos é de tenra idade outra parcela já está na casa dos 13/14 anos. O cenário comunitário mostra mães com muitos filhos e adolescentes grávidas. Uma realidade permeada pela miséria que se manifesta nos atendidos na luta da realidade versus a esperança de um futuro melhor. As atividades serviram para mostrar o mundo real e sutilmente perguntar: Você pretende reproduzir essa história na tua vida?
É forte a pressão que os invisíveis da sociedade sofrem para que eles continuem sendo vistos como tal. A pobreza, miséria e favela ainda marcam o sujeito. Muitas vezes deparamos com a defesa surgindo antes do ataque. A reprovação acontecendo sem a presença do reprovador. A autopunição está no ar. Desmascará-la é o nosso papel.
 É comum ouvirmos discursos pedindo mais recursos para aplacar as necessidades dos desprovidos. Nossa experiência aponta para o aprofundamento da visão dessa realidade. Se em muitas casas a falta de recurso marca a vida das pessoas em outras o preconceito dos abastados gesta jovens que mais facilmente, no futuro, serão homens e mulheres que terão posição de mando na sociedade. Nossa caminhada discute a seguinte questão: Precisamos atuar nos olhares que impomos nos diversos segmentos da sociedade. Quando o olhar muda o tratamento tende a se adequar melhor a realidade. Acusar a ponta da lança como a responsável pela agressão é o mesmo que desconhecer que ela ocupa o menor espaço da mesma. Antes do metal perfurante tem cabo manejado por muitos.
Ter no grupo um ex - menino de rua que se emociona ao contar sua história. Hoje essa criança é mais um adotado legalmente. Fica valendo a letra do samba: Água no feijão que chegou mais um.
...
Chega 2013.
Tem horas na vida que a melhor opção é dar uma para  avaliar.
Não cortamos com a garotada. Estamos por ai, por ali, por lá e cá.
Um dia, quem sabe, nos reencontramos.
Sinto saudades e as vezes fico preocupado.
Do que será que eles estão brincando agora?
Desejo a todos Luz e Felicidades. 




Sem comentários: